“Por mais que eu quisesse descrever em palavras a falta que você me faz todos os segundos que está longe de mim, não conseguiria. A cada passo que dou fora de casa, lembro da noite  em que meu sorriso tímido encontrou o seu, forçado e opaco, e de como meu rosto corou pelo simples fato de eu me achar boba por estar envergonhada.

    Preferia ter mantido o sentimento do passado, quando Hades me avisara que você não seria quem eu iria gostar, que meu amor era outro, mas não pude evitar. Sua presença constante e cativa cultivou em meu peito, antes vazio pela podridão da vida, uma semente que há muito não germinava lá. Primeiramente não lembrava porque diabos eu havia matado aquela semente, mas então senti a dor que me assolava e voltei a entender.

    Como dói  não ter você.

   Eu realmente precisava de você aqui, me protegendo do escuro, rindo do meu cabelo armado pela manhã ou simplesmente para derrubar o bule de chá no chão e eu brigar com você.

  Quem sou eu agora? Eu sempre amei a solidão, mas agora, qualquer resquício do silêncio me tortura. Eu odiava a escuridão, mas agora sou uma filha da noite, a sua espera. As trevas.

  A todo momento sinto falta do seus cabelos negros, sua barba rala e de como você reclamava por tudo. Sinto falta de sua mão, de seu pescoço, de seu ser. Sinto falta do simples fato de não ter você aqui só para mim. Por quê?

Em resumo, te espero na outra vida, para que possa ser feliz novamente.

Com amor,
Eleonore.”

    Eleonore dobrou o papel e segurou com força contra o peito. Suas mãos tremiam, inconstantes, e seus olhos estavam repletos de lágrimas. Ela olhava o pó dançar no ar, iluminado por uma réstia do sol que conseguia quebrar a escuridão do quarto. A dor assolava a alma da pobre mulher.

    Já havia se passado doze dias e agora sim estava completamente sozinha. Nunca odiara tanto a solidão e nunca desejara tanto a morte para que aquela dor passasse logo. Hades havia de ter piedade dela e não a faria sofrer no submundo.

    O sangue já havia manchado grande parte do lençol e Eleonore fechou os olhos, somente esperando. Ela não sabia muito o que esperar: quem sabe uma luz branca? Um cheiro acre de enxofre? Somente o breu? Não sabia. Simplesmente fechou os olhos e esperou que algo acontecesse.

    Ela não abriu mais os olhos por um bom tempo.