Já estava escuro e ambos sabiam quão perigoso era ficar sentados ali. A água gelada batia aos seus pés, lavando a areia que, inconvenientemente, grudava em seus pés a cada passo. Com as roupas molhadas e grudentas, a situação ficava cada vez mais desagradável.

    Eleonore e o recém-marido andavam pela praia apressados, afim de sair daquele lugar deserto e que há muito tinha tomado um cheiro acre de morte e podridão. O pobre mortal de seu cônjuge, ingênuo, apenas pensava em barqueiros carregando peixes e não entendia a aflição da noiva de sair daquele lugar. Fato era que, em seu âmago, Eleonore definhava de medo.

   O que a vidente esperava ser o melhor dia de sua vida, sua lua-de-mel, se tornara um pesadelo. Ela sabia que cedo ou tarde a morte viria buscar seu amado, mas não esperava que viesse tão cedo. Bem, isso que dá ignorar o sinistro, pensou. Naquela manhã, as borras lhe avisaram do mal, mas fez vista grossa. Hades não seria tão mesquinho.

   Uma risada sarcástica ecoou pelas costas do casal. Os pelos da nuca de Eleonore se ergueram, como gato irritado. Virou de costas para ver quem vinha. Somente a escuridão. Por favor, vamos embora, clamou ao marido. Matt assentiu com a cabeça e correram. Correram contra o vento que soprava e aos poucos soprava rapidamente o tempo de vida de Matt, e Eleonore então soube. Parou e abraçou-o.

   Então, tudo ficou frio e um uivo ecoou pela beira-mar. O corpo do homem se tornou frio, rígido, quieto. Com lágrimas aos olhos, Eleonore olhou para o corpo daquele que há pouco beijava-a ao pôr-do-sol. A risada voltou.

   Eris veio de dentro da escuridão, carregando um chacal junto ao corpo, com correntes. Estava nua e seu belo corpo liso denunciava porque era a deusa do caos e da destruição. Tão tentadora. O cabelo loiro caia liso por cima dos ombros, escondendo os seios por trás de uma cortina dourada de fios grossos.

   Pobre Eleonore, pobre, pobre mulher.  Não aprendera que nunca será feliz? Disse a deusa, abrindo um sorriso perolado. Se aproximou do homem e lhe ergueu pelo pescoço. Os olhos brancos do corpo se tornaram negros e um cheiro familiar preencheu as narinas da, agora, viúva.

   Os filhos de Hades surgiram por entre a areia, infectando o lugar com o cheiro pútrido do enxofre. Os braços magros dos demônios agarraram a perna de Matt e o arrastaram para a areia, enquanto sua alma se debatia e gritava pro clemência.  Ao fim, tudo fez silêncio.

   A moça nua largou o corpo agora vazio ao chão, este caindo e se chocando oco contra a areia há pouco remexida. Caminhando, lasciva, se aproximou de Eleonore e juntando seus corpos nus, beijou-a. Os lábios da deusa tinha gosto de rosas e era impossível livrar-se dela.

   Então, a viúva se viu sozinha no escuro, não mais silencioso. O mar quebrava atrás dela, suplicando pelo corpo. Eleonore não acatou. Deitou-se ao lado do corpo do marido e ficou lá, até que o sol da manhã aquecesse seu corpo. Somente seu corpo.