domingo, 5 de abril de 2020


               Cada paço dado era cada vez mais exaustivo. Eleonore caminhava há tanto tempo que não sabia mais há quanto tempo estava ali. Pareciam anos, mas seria fisicamente impossível. Os pés doíam, a respiração cada hora mais fraca e os olhos secos de tanto escorrerem. As sombras que a acolheram na chegada, até então caminhavam atrás dela, lembrando dos pecados e erros que cometera antes de vir para cá. Afinal, nem lembrava também o que veio fazer aqui.

               Tanto tempo se passara desde que chegou que os objetivos pelos quais havia embarcado nesta aventura que nem lembrava qual era o objetivo da busca. Era um amor? Um tesouro? A morte? Não que estes objetivos não fossem correlacionados, mas ela nem lembrava porque havia largado a vida na superfície para se aventurar no submundo. Inclusive, nem sequer se lembrava do calor do sol, das batidas do coração, da luz. Estava há tanto tempo na escuridão que não lembrava mais formas e cores. As pessoas do seu passado, Eleonore havia de se esforçar muito para lembrar. Nem sua magia, que foi algo que a manteve viva durante todos esses anos, ela lembrava mais como era ter.

               Assim como a adrenalina, seu corpo já estava anestesiado de dores emocionais para evitar um colapso certeiro. Então, por mais que tudo que abandonaste fosse importante e fizesse falta, ela já estava tão flagelada que não sentia mais falta.

               Há quanto tempo andava?

               Seus pés, depois de um tempo, cederam. Seu corpo sucumbiu ao chão e o impacto fez com que ela perdesse o ar. Eleonore ficou ali, deitada, ofegante, esperando que fosse realmente o fim. A escuridão a engolia pouco a pouco e, a aventura que havia iniciado sem nem mesmo lembrar o porquê, havia acabado. Seus olhos já piscavam mais lentamente, já agora ela se entregava ao submundo de vez. E tudo se fez breu.

               ...

               Ela então abriu os olhos novamente. Por que não havia sido consumida ainda? Sentia todas as dores físicas ainda, seu corpo ainda doía com a queda, sua respiração ainda estava ofegante, mas algo estava diferente. A sua frente, pequenas tochas iluminavam um caminho tortuoso. Não seria estranho se não fosse o fato que elas não estavam lá antes. A bruxa se levantou e se aproximou da trilha. Cada vez que se aproximava das tochas, seu corpo reagia de forma diferente, parecia que nunca havia sentido calor em sua vida. Por alguma razão, voltou a ter a sensação de segurança que há tanto tempo não sentia. Seria sábio confiar?

               Aos poucos, o medo, a solidão e o frio foram sendo afastados pela euforia, pela esperança e pelo calor. Sentiu vontade de correr, de correr em direção daquilo que poderia ser uma luz no breu ao qual se afogava. E assim o fez. Correu, com o ar quente em seu rosto até seus olhos voltarem a lacrimejar. Ao longe foi vendo uma figura tomando forma pouco a pouco.

               Parou poucos passos da porta da casa que estava ali no meio do nada. Não era um local muito habitável. Havia algumas telhas faltando, alguns vidros quebrados, a porta já havia sido arrombada, mas dentro dela havia luz. Eleonore, sem cuidado, foi entrando na residência sem ser convidada e se fez confortável. Era a primeira vez que tinha um abrigo há muito tempo.

               Por dentro, o local era diferente da faceta externa. Era confortável, agradável, muito bem cuidada. Era um cômodo só: a esquerda da porta havia uma cama encostada na parede com um cobertor de retalhos. Parecia recém arrumada ou ninguém havia deitado nela ainda. Logo ao seu lado tinha uma lareira que ainda queimava, esquentando uma caldeira recheado com o que parecia ser uma carne ensopada. O cheiro delicioso inundava o ambiente. Logo ao centro, então, havia uma mesa e um bilhete sobre ela.


FIQUE À VONTADE


               E sem receio, Eleonore se fez à vontade. Aproveitou o calor da casa, o sabor da comida, a sensação de segurança. Nem lembrava quão bom era a sensação da vida, qual confortável era a comodidade, como o bem-estar fazia bem para a alma. A bruxa fez o desjejum de sabe lá a quanto tempo. Comia com a mão, com o caldo da carne escorrendo por seus braços. Seu cabelo e rosto completamente sujos pela euforia e pela fome. Chegou a chorar de alívio.

               - Olha essa porqueira – riu depois do prato vazio ao observar a bagunça que havia feito. Não tinha noção da velocidade que comeu, mas parecia que havia entrado de corpo inteiro no prato fundo. Seu corpo pegajoso precisava ser limpo.

               A bruxa então se pôs fora da casa, para se lavar no rio que corria ao seu lado durante toda sua caminhada. Enquanto estava lá dentro, esquecera o frio de fora, os barulhos, o medo e a escuridão. Tratou de lavar-se rápido e voltar correndo para seu abrigo.

               Já em segurança, então deitou na cama. Era aconchegante, acolhedora. O cobertor abraçou a abraçou, esquentando cada centímetro de seu corpo. Ela cheirava a limpeza, a novo e todo este conforto, por alguma razão, não levantou nenhuma suspeita. Foi então que o cansaço a venceu novamente e Eleonore dormiu.


               ...
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               Uma brisa fria arrepiou a espinha da bruxa e a fez acordar. Os olhos pesados tentaram a preparar para o que veria, mas seu coração já havia se acostumado. Quando finalmente pode ver, a ilusão foi desfeita. Não havia casa, não havia cama, não havia comida.

               Seu corpo jazia sob uma pedra em forma de túmulo entre os escombros de madeiras de um velho imóvel. Levantou, desolada e caminhou até a lareira. O caldeirão que ontem havia comida hoje só havia comida podre e restos de algum ser que não conhecia, mas sabia que faria mal. Caiu de joelhos e vomitou. O cheiro de podre inundava seu nariz. Lá fora, ouvia o riso das sombras que a humilhavam e que se vangloriavam da conquista. Haviam enganado a mortal mais uma vez. Eleonore sucumbiu novamente.

               ...

               Não sabia por quanto tempo havia desmaiado, mas se levantou. Lá fora, as sombras voltaram a rir e lembra-la dos erros do passado e do presente. Mesmo derrotada, caminhou para fora e voltou à sua trilha para algum lugar que não sabia onde era mais. As sombras haviam vencido novamente, mas não poderia desistir de andar. Pelo menos não por agora, mesmo que seu coração sangrasse com a traição, a humilhação e a falsa esperança. Não poderia desistir de andar, mesmo que quisesse.

terça-feira, 1 de agosto de 2017

      Via com olhos cansados a cena se repetir a todo momento, cada toque, cada sorriso. Via a possibilidades, prospecções de como a vida seria se tudo tivesse seguindo o mesmo curso de sempre. Era difícil aceitar que, por mais que doesse, os caminhos da vida não são tomados por nós, mas pelo o que as tecelãs decidiram. Estava por trás da janela, observando com carinho e saudade todo aquele sentimento puro e inocente que um dia tivera e hoje estava morto.

Eleonore sabia que aquilo estava enterrado a sete palmos e que se tentasse reanimar, seria perseguida pelo resto da vida. “Não se mexe em cadáver” uma senhora mentora um dia a dissera, “traz coisas ruim”. Mas Eleonore não queria mexer mesmo, só observava, como uma mãe observa com dor e desespero o corpo do filho ao lado do caixão.

A escuridão e as entidades do lugar onde estava construíam tramas do outro lado da janela, a fim de seduzir a mulher a permanecer no escuro, a ceder a sede de ter um coração novamente mas ela estava ciente de que tudo aquilo não passava de marionetes querendo destruir o pouco que restara de sua alma.

- Você sabe que não podemos ficar juntos - dizia a si mesma, enquanto observava as imagens do seu passado em momentos carinhos, íntimos. A ilusão da pessoa que um dia amara a afagando em seu colo quebrava seu coração, mas de alguma forma não conseguia tirar os olhos.

Era como um vício, como se a dor já tivesse se tornado tão comum que precisava de mais para poder se sentir viva e não esquecer do porquê estava ali. A dor se tornara sua alimentação, sua respiração, seu sangue. Aliás, há quanto tempo não comia?

Não tirava o rosto da vidraça, seus olhos fixos no casal que, dentro de casa, eram tão bonitos, perfeitos um ao outro. Não havia dor, não havia sofrimento. Ou havia, mas ela preferia não se ater antigamente. Teria vivido a vida toda uma ilusão? Aquelas situações tinham sido apenas sonhos observados ao longe na esperança de serem alcançados um dia?

Finalmente conseguiu se desvincular da janela, e se afastou da casa. Atrás de si estava o barco que fora seu companheiro durante essa longa viagem. O rio acabara mas não sua viagem, tinha um grande caminho a percorrer e muitos tormentos para sofrer.

Ao seu redor, as sombras sussurravam seu nome, sua história tentando a fazer desfalecer pelo caminho. Mas Eleonore sabia que não podia fazer nada senão continuar andando, afinal, dessa vez não podia desistir.

quarta-feira, 21 de junho de 2017

   
    Não há sensação mais aconchegante do que o calor. O calor do sol, o calor do fogo, o calor do nosso corpo. É uma sensação que te protege de todo mal, te protege da escuridão que assola a noite, te protege o frio que trava seus músculos. Às, às vezes é quente, mas sempre reconfortante. 

    Eleonore escondia o rosto por entre a peito dele, protegendo as pálpebras que queimavam com o sol. Seus pés imundos de areia e a roupa de ontem denunciavam que dormiram na areia da praia depois da longa noite de festa. Ao fundo, o leve porém constante som do mar ecoava em seu ouvido, embalando-a em uma cantiga de ninar cantada por Poseidon. Também ouvia os pássaros do litoral, acordando e anunciando o começar o dia. 

    Com o rosto em seu peito, sentia a respiração dele movimentando seu rosto para cima e para baixo, em um afago gentil e espontâneo. Sentia suas costelas em sua têmpora, mas era o travesseiro mais confortável que já havia deitado. Não conseguia guardar o sorriso que lhe enchia a boca. Estava tão feliz. 

    Carinhosamente, subiu seus longos e finos dedos até o rosto dele. As pontas sentiam a rala barba que enchia seu queixo, tão áspero e inóspito. Aquele pequeno chumaço o fazia parecer mais “mal”, o que a seduzia, pois se sentia protegida. Passava a mão e sentia o maxilar firme e bem desenhado, sentia as pequenas mechas de cabelo que caiam de sua testa ao seu rosto. Era tão lindo.

    Os braços dele envolviam Eleonore no mais acolhedor cobertor, que a protegia do vento e dos males ao redor. As mãos firmas a seguravam pela cintura, pressionando seu corpo junto ao dele, afinal, eram um só, mesma alma em corpos separados. Não corriam o risco de ficar longe um do outro porque se os corpos se separassem muito, a alma em um deles morreria e ninguém queria isso. Eram mais que ligados um ao outro, eram a vida e a morte de si. Era amor. 

    No seu ouvido, ela ouvia o bater do coração dele. O ritmo calmo de quem tinha um sono tranquilo, uma música que guiava seu próprio batimento cardíaco. Era como uma banda marcial, que guiava sua alma por uma caminho seguro. Porém, a banda foi aos poucos se distanciando, seguindo seu caminho e Eleonore foi ficando para trás, aos prantos por atenção, para que não a deixassem. Ficou silêncio. O mundo ao seu redor ficou frio, quieto, inóspito. Os braços que antes a seguravam agora a prendiam. O peito que fora um travesseiro, agora era uma rocha. Estava sozinha.

    Eleonore acordou no mesmo barco que pegara anos atrás, seguindo seu caminho para o submundo, onde confrontaria a morte. Era a única direção a qual via sentido, mas era longo e tortuoso. Às suas costas, as almas abandonadas a faziam lembrar do que já teve, a faziam lembrar que já fora feliz. Já havia usado feitiços para apagar a memória muitas vezes, mas os espíritos que a atormentavam faziam questão de cantar seus erros e acertos, de rimar sua perda, sua morte. 

    Tampando os ouvidos com as mãos, esperava o barco chegar ao seu destino, esperando aquele pesadelo acabar, afinal, aconteceu o que eles não queriam. A alma de um deles morreu, e agora Eleonore vagava pelo mundo, apenas uma casca, com medo de rachar para expor o vazio que estava dentro. Precisava de uma nova alma, uma só dela, era esse seu destino. 

    O barco sumiu na escuridão, junto a Eleonore, levando-a onde a morte vigia.