Cada
paço dado era cada vez mais exaustivo. Eleonore caminhava há tanto tempo que
não sabia mais há quanto tempo estava ali. Pareciam anos, mas seria fisicamente
impossível. Os pés doíam, a respiração cada hora mais fraca e os olhos secos de
tanto escorrerem. As sombras que a acolheram na chegada, até então caminhavam
atrás dela, lembrando dos pecados e erros que cometera antes de vir para cá. Afinal,
nem lembrava também o que veio fazer aqui.
Tanto
tempo se passara desde que chegou que os objetivos pelos quais havia embarcado
nesta aventura que nem lembrava qual era o objetivo da busca. Era um amor? Um
tesouro? A morte? Não que estes objetivos não fossem correlacionados, mas ela
nem lembrava porque havia largado a vida na superfície para se aventurar no
submundo. Inclusive, nem sequer se lembrava do calor do sol, das batidas do
coração, da luz. Estava há tanto tempo na escuridão que não lembrava mais
formas e cores. As pessoas do seu passado, Eleonore havia de se esforçar muito
para lembrar. Nem sua magia, que foi algo que a manteve viva durante todos
esses anos, ela lembrava mais como era ter.
Assim
como a adrenalina, seu corpo já estava anestesiado de dores emocionais para
evitar um colapso certeiro. Então, por mais que tudo que abandonaste fosse
importante e fizesse falta, ela já estava tão flagelada que não sentia mais
falta.
Há
quanto tempo andava?
Seus
pés, depois de um tempo, cederam. Seu corpo sucumbiu ao chão e o impacto fez
com que ela perdesse o ar. Eleonore ficou ali, deitada, ofegante, esperando que
fosse realmente o fim. A escuridão a engolia pouco a pouco e, a aventura que
havia iniciado sem nem mesmo lembrar o porquê, havia acabado. Seus olhos já
piscavam mais lentamente, já agora ela se entregava ao submundo de vez. E tudo
se fez breu.
...
Ela
então abriu os olhos novamente. Por que não havia sido consumida ainda? Sentia
todas as dores físicas ainda, seu corpo ainda doía com a queda, sua respiração
ainda estava ofegante, mas algo estava diferente. A sua frente, pequenas tochas
iluminavam um caminho tortuoso. Não seria estranho se não fosse o fato que elas
não estavam lá antes. A bruxa se levantou e se aproximou da trilha. Cada vez
que se aproximava das tochas, seu corpo reagia de forma diferente, parecia que
nunca havia sentido calor em sua vida. Por alguma razão, voltou a ter a
sensação de segurança que há tanto tempo não sentia. Seria sábio confiar?
Aos
poucos, o medo, a solidão e o frio foram sendo afastados pela euforia, pela
esperança e pelo calor. Sentiu vontade de correr, de correr em direção daquilo
que poderia ser uma luz no breu ao qual se afogava. E assim o fez. Correu, com
o ar quente em seu rosto até seus olhos voltarem a lacrimejar. Ao longe foi
vendo uma figura tomando forma pouco a pouco.
Parou
poucos passos da porta da casa que estava ali no meio do nada. Não era um local
muito habitável. Havia algumas telhas faltando, alguns vidros quebrados, a
porta já havia sido arrombada, mas dentro dela havia luz. Eleonore, sem cuidado,
foi entrando na residência sem ser convidada e se fez confortável. Era a
primeira vez que tinha um abrigo há muito tempo.
Por
dentro, o local era diferente da faceta externa. Era confortável, agradável,
muito bem cuidada. Era um cômodo só: a esquerda da porta havia uma cama encostada
na parede com um cobertor de retalhos. Parecia recém arrumada ou ninguém havia
deitado nela ainda. Logo ao seu lado tinha uma lareira que ainda queimava,
esquentando uma caldeira recheado com o que parecia ser uma carne ensopada. O
cheiro delicioso inundava o ambiente. Logo ao centro, então, havia uma mesa e
um bilhete sobre ela.
FIQUE À VONTADE
E
sem receio, Eleonore se fez à vontade. Aproveitou o calor da casa, o sabor da
comida, a sensação de segurança. Nem lembrava quão bom era a sensação da vida,
qual confortável era a comodidade, como o bem-estar fazia bem para a alma. A bruxa
fez o desjejum de sabe lá a quanto tempo. Comia com a mão, com o caldo da carne
escorrendo por seus braços. Seu cabelo e rosto completamente sujos pela euforia
e pela fome. Chegou a chorar de alívio.
-
Olha essa porqueira – riu depois do prato vazio ao observar a bagunça que havia
feito. Não tinha noção da velocidade que comeu, mas parecia que havia entrado de
corpo inteiro no prato fundo. Seu corpo pegajoso precisava ser limpo.
A
bruxa então se pôs fora da casa, para se lavar no rio que corria ao seu lado durante
toda sua caminhada. Enquanto estava lá dentro, esquecera o frio de fora, os barulhos,
o medo e a escuridão. Tratou de lavar-se rápido e voltar correndo para seu
abrigo.
Já
em segurança, então deitou na cama. Era aconchegante, acolhedora. O cobertor
abraçou a abraçou, esquentando cada centímetro de seu corpo. Ela cheirava a
limpeza, a novo e todo este conforto, por alguma razão, não levantou nenhuma
suspeita. Foi então que o cansaço a venceu novamente e Eleonore dormiu.
...
...
...
...
...
Uma
brisa fria arrepiou a espinha da bruxa e a fez acordar. Os olhos pesados tentaram
a preparar para o que veria, mas seu coração já havia se acostumado. Quando
finalmente pode ver, a ilusão foi desfeita. Não havia casa, não havia cama, não
havia comida.
Seu
corpo jazia sob uma pedra em forma de túmulo entre os escombros de madeiras de
um velho imóvel. Levantou, desolada e caminhou até a lareira. O caldeirão que
ontem havia comida hoje só havia comida podre e restos de algum ser que não
conhecia, mas sabia que faria mal. Caiu de joelhos e vomitou. O cheiro de podre
inundava seu nariz. Lá fora, ouvia o riso das sombras que a humilhavam e que se
vangloriavam da conquista. Haviam enganado a mortal mais uma vez. Eleonore
sucumbiu novamente.
...
Não
sabia por quanto tempo havia desmaiado, mas se levantou. Lá fora, as sombras voltaram
a rir e lembra-la dos erros do passado e do presente. Mesmo derrotada, caminhou
para fora e voltou à sua trilha para algum lugar que não sabia onde era mais. As
sombras haviam vencido novamente, mas não poderia desistir de andar. Pelo menos
não por agora, mesmo que seu coração sangrasse com a traição, a humilhação e a
falsa esperança. Não poderia desistir de andar, mesmo que quisesse.