Se viu novamente trancada naquele quarto branco. Tudo tinha cheiro de novo, de recomeço. Fedia. Eleonore sempre tivera pavor do novo, sempre tivera pavor de criar expectativas e esse novo quebrá-las em zilhões, quebrando-a junto. Na realidade, não sabia lidas muito bem com as decepções. A luz do dia deixava ainda mais branco, o que já era insuportável de enxergar.
Percebera que o branco agora definia sua vida. Cabelos quase brancos, há pouco havia vestido um vestido branco, a decoração da igreja era branca. Seu corpo, agora nu, também branco. Essa cor maldita regia, não somente seu passado, mas também seu futuro.
Esperança? Não. Sofrimento. O branco simboliza o sofrimento, a frustração, a decepções. A pomba branca, símbolo da paz, na verdade vinha e cagava em sua cabeça. Pombas também eram animais desprezíveis.
Realmente estava nua. Como ficara? Só Gaia sabia. Sua vida agora estava tão confusa quanto velha com Alzheimer numa montanha russa. Sorriu e foi até a janela do quarto. O mundo lá fora estava cinzento, não mais branco. Cinza também era uma cor desprezível.
Então sentira uma presença, aquela presença que carcomia sua alma e que lhe deixava desconfortável. Hades se pôs ao seu lado na janela, sorrindo. O Deus do submundo estava ali e ela sabia o porquê. Estava morta.
Hades à fitou. Observava com gana sua nova conquista, um premio tão cobiça no subterrâneo. Tocou os cabelos de Eleonore. Ela sentiu o cheiro de enxofre em sua mão. Fato era que, Hades não era um deus feio, mas sabia muito bem estava ali para frustrar tudo o que tentara construir. Deixou-o tocá-la. Teria a eternidade para tocá-la.
Náuseas.
O deus da morte era pouco maior que ela, tinha cabelos escuros, olhos escuros e lábios tão finos quanto linhas de costura. Um nariz másculo preenchia o meio do seu rosto. Era tentador. As mouras gostam muito de ti, sabe Delfus?, disse Hades. Há muito que te quero, sabes disso melhor do que ninguém. Sabes que este mundo não te pertence. Então, por que relutas a vir à mim?
Eleonore não entendeu. Não estava morta? Se tocou novamente e não estava mais nua. Seu corpo agora estava coberto por um vestido branco, de rendas. Em seu rosto coberto por véu fino. Agora via à sua frente outro homem, o homem cujo qual amara por dez anos. Então senhorita Delfus, aceita Mark Grabman como seu legítimo esposo? disse o padre. Olhara para o lado, Hades estava no banco, sorrindo novamente. Sabia quem era seu real marido, e não era Mark. Aceito, respondeu. E por fim, os noivos se beijaram, tão verdadeiros quanto a virgindade de Hera.