Eleonore abriu os olhos e não estava mais em seu quarto. Ainda estava deitada em sua cama, mas não estava mais onde dormira. Era como se sua cama tivesse tomado vida e carregado-a à outro lugar qualquer. Bem, aquele não era um lugar qualquer, e isso não era muito difícil de perceber. Sentou-se na cama e olhou para onde estava.

    Era como se fosse uma caverna enorme, úmida e fria. Das paredes escorria água, que corria pelos cantos até o fim escuro e distante. Apesar disso, o chão era áspero e seco, se assemelhando muito com asfalto. O lugar tinha uma iluminação fraca e acinzentada, sem fonte visível. Simplesmente estava ali. As paredes subiam infinitamente,  se encontrando com o breu e nada mais se via após isso. 
                               
    A bruxa se levantou da cama e andou alguns passos para frente, observando o lugar. Passara os dedos na parede que vertia água, mas não se molhou. Virou-se para trás e sua cama não estava mais alí. Eleonore se sentiu perdida, desolada. Onde estava?

    O lugar não tinha odor, não tinha cor. Não tinha som, e a quietude atordoava Eleonore.  – ALÔÔ! – gritou. Sua voz morreu seca aonde estava, sem se prolongar. Nem sinal do eco. Fechou os olhos e sentia sozinha.

- Alô querida – sussurraram ao seu ouvido. A moça loira gritou, assustada, e virando de costas subitamente, caiu no chão. Agora ela fitava uma figura estranha, mórbida, porém carismática. – Por que te assustas, mulher? Não sou tão feio – disse, rindo.

    Quem se dirigia à Eleonore era um homem jovem, na beira dos seus 20 anos. Era muito branco, tinha olheiras profundas e lábios pálidos. Tinha estatura alta, corpo atlético e um sorriso perfeito e perolado. Seus olhos negros como a noite eram moldados por cílios longos mas não afeminados. Vestia uma roupa de tecido cru e seco, branca e sem movimento. Seus pés, descalços, eram rabiscados de roxo pelas veias que se exibiam por debaixo da pele transparente. O cabelo era ondulado, ligeiramente longo e eram tão negros quanto seus olhos.

    Ele estendeu-a a mão e a ergueu. – Eu pensei que demoraria à te conhecer, srta. Delfus, mas pelo visto não resistiu à vida nua e crua. Aliás, sou Archo, muito prazer. – disse, carismático. Apesar da entonação alegre e descontraída, Eleonore sentiu como se ele estivesse numa mistura de frustração e deboche. Isso à irritara.

- Meu problema nunca fora a vida, sr. Archo. Pelo contrário, tive uma vida linda e digna de lembranças perfeitas. Quem me incomodara muito fora ti, meu querido. A morte sempre tivera a facilidade em estragar meu dia. Uma vida aqui, outra ali. Ceifavas todos ao meu redor. Então resolvi vir ao teu encontro, tirar algumas satisfações. Por sinal,  você não era mulher?

    Archo  gargalhou alto, e dessa vez, o som ecoou por todo o lugar e um arrepio percorreu pela coluna de Eleonore. Ele limpou os olhos com a ponta dos dedos, pois ele havia, literalmente, chorado de rir. Esbaforido, olhou para a recém chegada e respondeu.

- Srta. Delfus, não precisa ser tão formal, por favor. Estamos entre amigos, pois você me conhece muito bem, então guarde as formalidades para sua mãe e a rainha da Inglaterra. Bem, sempre gostei de você, então sempre quis me manter próximo. Desculpe se isso a incomodava. – disse, fazendo um biquinho com os lábios. – E bem, não sou mulher, como você pode ver. – riu – Há muitas coisas que falam sobre mim, amiga, e meu sexo e minhas vestimentas são exemplos. Como você também pode ver, não estou de manto preto, nem foice, nem nada assim. Humanos tem a divertida mania de me pintar de uma forma um pouco... medieval e medrosa.

- Você me parece um pouco andrógino – respondeu Eleonore. Archo voltou a rir. – Mentira, não parece. É um rapaz muito jovem. Cadê o peso da idade? Qual o antirrugas que você usa, meu querido? AVON? Funciona. Ok, desculpe, estava descontraindo o clima. – A morte segurava o punho contra a boca, para controlar o riso. Apesar de tentar descontrair o clima, Eleonore sentira um pouco de raiva dele. Levara todos que ela amava, deixando-a sozinha no mundo.

- Nunca levei ninguém. – respondeu Archo

- Que?

- Nunca levei ninguém, Eleonore. Quer dizer, levei uma pessoa só. Você está no meu reino, ouço o que pensa. Trouxe para minha companhia sua mãe, e não minto, fora por pura inveja. Me sinto sozinho, tão sozinho quanto você. Procuro ficar ao seu redor, mas você me afasta com frequência. Gostaria de ser seu filho, marida, irmão. Gostaria de ter uma avó, uma mãe, uma prima. Mato amores, crio ídolos. Termino guerras com a mesma facilidade que as começo. Mas somente trouxe à mim sua mãe, ninguém mais. Não vê, minha querida, que quem sumiu com quem amava, foi você mesma? Foi você que fez seu marido ir embora. Foi você que fez a cidade achar que você era louca e que a marginalizasse. Você não é louca, então pare de fingir que é. Você tem um dom, e não sabe como usá-lo. Por isso veio à mim, não? Para renascer, para saber ser você mesma.

    Os olhos azuis de Eleonore estavam do tamanho de Júpiter. Muita informação. De repente, toda sua vida passara pelos seus olhos. Viu seus erros, suas frustrações, suas viagens. Colocara a culpa em Archo durante muito tempo por seus próprios feitos. Quão criança era.

    Archo a abraçou – seu lugar, ainda, não é comigo. Volte lá para cima e veja se arruma isso ai. Não quero você tão cedo por aqui, mocinha. – soltou-a e segurando sua mão, terminou – Agora volte para lá cima e depois de tudo estar arrumado, tome uma antitetânica porque aquela merda tava enferrujada. Archo riu e tudo ficou escuro por um momento.

    Então a claridade esquentou seus olhos e ela os abriu devagar, queimando-os. Estava no hospital. O silêncio que há pouco reinava, agora era quebrado pelo apitar irritante da máquina de controle cardíaco. Seus pulsos estavam enfaixados com gaze e doíam muito.

    Realmente tentara se matar. Ridícula. Agora havia entendido a mensagem, entendido tudo o que fizera de errado e não voltaria a fazê-los. Ganhara uma segunda chance, um renascer e dessa vez só voltaria à Archo quando ele mesmo viesse buscá-la.