Segura à mão um porta retrato com uma moldura dourada carcomida pelo tempo. Nela, três belas moças loiras sorriam uma para a outra, com olhos reluzindo de felicidade. A jovem do meio era sem dúvida alguma muito singular. Seus cabelos crespos estavam presos num coque atras do cabelo, seus olhos azuis reproduziam o céu e seus dentes brancos denunciavam como era jovem e saudável.

Eleonore se indagava quanto tempo passara desde que tiraram aquela foto. Vinte, trinta, quarenta anos? Havia passado tanto tempo que uma das moças nem estava mais presente entre os vivos. Há alguns anos, a Morte a havia levado de encontro à Gaia para que ficasse em paz eterna. Pelo que sabia, a outra também estava quase recebendo visitas da Dama de Negro. Estava internada no hospital. Câncer. Em seu peito, guardava o saudosismo desta época, tinham as duas moças um lugar certo em seu coração. Mas algo incomodava Eleonore: como se chamavam?

Verdade é, nunca foi uma ótima guardadora de nomes e datas, mas não ao ponto de esquecer o nome das meninas que fizeram de sua infância no orfanato um lugar seguro e melhor. Isso a incomodava, não era uma boa amiga. Bateu com a cabeça na parede com raiva, frustração e insanidade. Seus olhos vazavam em lágrimas sem sentido e por pessoas que agora não tinham mais nem rosto na fotografia

Tudo o tempo consegue apagar. Nomes, rostos, vidas. Tudo passa em vão pelos poderes do tempo e sóCronos tem seu controle. E Eleonore há muito não tinha noção do tempo, há muito perdeu contato com o Deus do tempo e do universo.

Há quanto tempo esteve aqui? Aqui se refere ao mundo. Quantos anos tinha? Não fazia ideia. Havia passado um ano desde sua última festa de aniversário ou 100? Realmente não lembrava. Realmente partia sua alma não lembrar.

E então voltará a si, num raio de sanidade. Sua testa sangrava. Provavelmente as batidas haviam aberto uma ferida. Isso não era muito preocupante para ela. Usaria seu próprio sangue como oferenda à Gaia para que voltasse a controlar o passado. Do que adiantava saber o futuro, se o passado ainda à perseguia, obscuro?

[...]

Enxaguava o pano ensanguentado dentro da banheira coberta de musgo. Junto à isso, rezava em grego para que a Deusa mãe a abençoa-se e que lhe desse, não somente o dom da adivinhação, mas do controle do próprio passado. Era do passado que queria lembrar, sem interrupções ou flashs momentâneos E então, num espasmo, entrou em transe.

Uma bela mulher de cabelos longos e verdes caminhava nua em sua direção, com um sorriso cativo e preocupado. Um sorriso de mãe abortada, abortada mas que ainda ama. E lhe abraçou, corpo nu contra corpo nu, mas sem malícia. Uma mãe abraçando o corpo morto do recém-nascido E com olhar de piedade respondeu: “Aos gananciosos é dado o controle do passado. Mas também à eles é fadado o sofrimento. O passado continua o passado e nada voltará a ser como antes”. E tudo virou breu, e a respiração da mulher loira ao chão finalmente voltou.