Os olhos de Eleonore se abriram devagar e se deparam com o ataque facial dos loiros cabelos armados. Se levantou devagar do sofá onde dormira na noite passada sem saber o motivo. Tinha certeza que Eris havia bolado aquele plano maligno de fazê-la dormir sem perceber. Maldita Eris e sua inveja. Dormira até mesmo com a roupa que havia usado no dia anterior. Seu vestido florido favorito agora estava mais amassado que dinheiro em boca de vaca. Não perdoaria a deusa do caos por nada nesse mundo.

Levantou-se com seu cabelo leonino à mostra e caminhou pela sala onde dormira. Era este um dos quatro cômodos que tinha em casa.Sua residência se resumia em quarto, sala, cozinha e banheiro, sendo o ultimo também seu altar aos deuses, sua biblioteca e seu spa. Além disso, tinha um pequeno jardim na parte de trás da casa, onde tinha flores, sua horta e gnomos. Eleonore amava os gnomos, mas tinha certeza que eles tinham uma conspiração com Eris para lhe roubar a casa. Mas sabe como é, amor de mãe perdoa tudo.

Caminhou pela casa, desgovernada e cega até conseguir chegar ao banheiro para dominar seu cabelo. Ai, como ela amava o banheiro. Gaia havia abençoado-o com limbo por todo o local. Era um pequeno cubículo verde, com uma pequena pia, um vaso, uma banheira que era usada como banheira, como altar, como caldeirão de poções e até mesmo quando tinha que dar aula, onde ela jogava as borras de café. Amarrou o cabelo com o elástico encantado que havia comprado de um gnomo e saiu atrás de suas tamancas de madeira.

As tamancas de madeira eram também outra de suas paixões. Quem de longe ouvia Eleonore caminhar com elas, pensava em cascos correndo. Tinham um peso gigantesco, eram velhas mas tinham a alma da pobre adivinhadora.

Eram quase duas horas da tarde quando acordara e seu estômago respondia negativamente a falta de comida. Doía-lhe. Na cozinha,Eleonore procurava algo comível entre os frascos de pele de morcego e olho de trasgo. Bolacha maria, tinha que achar bolacha maria e tomar com chá de cabelo de gnomo. Pobres humanos que se achavam fodas por tomar chá de fita cassete. Chá de gnomo era MILHÕES de vezes melhor e mais fortes. Apagava um humano em poucos minutos.

Apagar, isso que precisava. No meio das férias de verão, não havia nada para fazer. Seus alunos todos de férias. Seus alunos, seus amados alunos. Eram como filhos para ela, e tinha certeza que sentiam falta de suas aulas de adivinhação. Gaiatambém sentia falta deles, dizia aos seus ouvidos.

A chaleira apitava no fogão carcomido pelo tempo, denunciando que a água já estava quente. Mergulhara alguns gnomos junto da água escaldante e esperou. Por fim, virou numa xicara e se sentou novamente ao sofá onde acordará junto de bolachas maria. Olhava o vento lá fora. O vento do verão que soprava às árvores e apagava as marcas do passado. O passado que ela não lembrava. Que nunca lembrou. Virou a xícara e com o passar o tempo, às árvores foram sendo tomadas pela escuridão, e tudo virou breu.