Os tamancos batiam fortes contra a calçada de concreto. Quem ouvia de longe, imaginava cascos de cavalo pelas ruas da cidade. Eram o som característico de Eleonore, e todos que ouviam sabiam que quem vinha era a louca da casa 45, que nunca saia de casa a não ser para causar o caos e comprar coisas aleatórias no mercado. A mulher vivia sozinha. As más linguas diziam que ela tinha sido abandonada pela familia por ser macumbeira. Outras teorias eram pela doença ou por opção mesmo. Algumas pessoas até acreditavam em bruxaria, pois eram constantes os barulhos estranhos naquela residencia, assim como luzes de cores diversas que apareciam algumas vezes ao ano. Em resumo, todos a achavam estranha, de qualquer forma.

Verdade era, que todos a conheciam desde criança, pelo menos os mais velhos. Era filha única de Ingrid Delfus, uma antiga moradora e que tinha uma das mais prósperas floriculturas da cidade. Desde sempre moraram na casa 45 e eram uma das famílias mais conhecidas das redondezas. Problema foi, com Eleonore já adulta e casada, quando sua mãe falecera. Caira em depressão profunda, que resultou em 6 meses ininterruptos na cama. A floricultura falira, por falta de cuidados. Seu marido, a abandonou. Nada mais restara em sua vida, a não ser a própria solidão. Ficara meses sem ser vista, e quando retornara a vida social, estava totalmente transformada. A engomada moça casada, havia virado uma louca hippie. As fofoqueiras falaram que foi uma crise nervosa, mas nada comprovado.

Ninguém sabia de onde saía sua renda. Era poucas vezes por ano vista fora de casa, e quando estava colocava uma placa na frente de casa para trabalhar como adivinhadora. Charlatã maldita, diziam as velhas do tricô da igreja. Outros falavam que vivia do seguro de vida que a mãe deixara ou de um pacto com o diabo para ganhar dinheiro fácil. Ela diz que dá aulas de adivinhação numa escola, mas nunca vi nenhuma com essa matéria por aqui. Mentirosa, isso que é, sempre diziam.

Naquele dia de sol, Eleonore saira de casa. Dizia que estava de férias, mas que já sentia falta de seus alunos. Carregava consigo uma cestinha de palha, daquela a lá chapeuzinho vermelho. Ia ao mercado. Precisava comprar comida, suplementos mágicos, e negociar com os duendes. Estavam roubando duas coisas novamente. Iria ameaça-los dessa vez, por que estava farta de sumirem com suas coisas para venderem no mercado.

De frente ao seu destino, já abrira um sorriso. Tinha um fascinio pela portas automáticas. Parara defronte à elas e esperou-as abrir. Com um pulo, entrara no mercado e esperara que fechassem. Rira alto e olhara o local. Estava cheio, como sempre. As pessoas gostavam de negociar com os duendes, por isso eles roubavam as coisas. Era a lei da oferta e da procura. Quanto mais procuravam mais os pequeninos tinham que roubar. Infelizmente, Eleonore só confiava nos gnomos pois eram ótimos amigos, e faziam chás.

[...]

Já com a cesta cheia do que precisava comprar, tinha que por fim, negociar com os duendes. Incrivelmente, aquele dia parecia que todos necessitavam fazê-lo . A fila estava enorme. Muitas vezes as pessoas nem conversavam com os duendes, simplesmente davam-lhe o dinheiro e iam embora. Naquele dia, eles não se livrariam tão facilmente dela.

Finalmente chegara sua vez. Colocou todos os itens da cesta naquela esteira que ia de encontro à duende banqueira. Adorava a esteira, os duendes eram genios, só havia essa hipótese. 65 dólares, senhora Delfus, disse a duende banqueira.

Pago 60, duende. Sei que vocês andam roubando minha casa e é isso que pagarei pelo incomodo que andam fazendo. Dou 60 e nada mais. Próxima vez que roubarem algo, não serei tão boazinha. A atendende suspirou e pegou o dinheiro. Eleonore saiu poderosa, vitoriosa daquela batalha. Às suas costas as pessoas cochichavam sobre sua loucura. Loucura que ela chamava de vida, e era sua unica companheira.