A fumaça vinha contra ela, queimando seus olhos. Ao longe, a cidade em chamas gritava na sua própria destruição. O som de metal dilacerado, gritos desesperados e morte preenchia seus ouvidos. Seu cabelo voava para trás, mas manteve sua pose imponente para aquela situação. A fumaça se tornava mais negra e mais espessa e algo vinha por ela, ao seu encontro.

A besta veio mansa por entre a escuridão, de cabeça baixa como cão que pede carinho. Seus olhos amarelos, rachados por uma fenda negra, com profundidade penetravam aos olhos de Eleonore. A pele acre coberta por um pelo ralo e cinza, estava manchada de sangue e vira nele a própria morte. Behemoth, um dos príncipes do inferno, ali à sua frente se entregando à ela. Estendeu a mão e afagou suas orelhas. O animal bestial deitou aos seus pés e lá vomitou verdades. Verdades que Eleonoreprecisava dar à alguém.

Abriu os olhos do transe. Estava tensa novamente. Cada músculo do seu corpo doía, em especial sua mão. Esta estava sendo segurada pela cliente, a velha Carmélia Wilson. Era sua cliente fiel, pois sabia que todas as suas profecias eram verdadeiras e há muito se consultava.

Carmélia Wilson era uma senhora de já seus 75 anos, que era muito devota do paganismo. Tinha olhos pequenos e azuis, protegidos por um óculos de lentes bem grossas. Sua pele enrugada denunciava a vida sofrida que tivera debaixo do sol, e seus cabelos brancos e crespos lhe davam aquele ar de vovó que todos veem na televisão.

A verdade é que há muito ela suspeitava de que um dos seus filhos queria lhe matar para pegar sua herança. O homem estava literalmente falido após gastar todo o dinheiro que ganhará em jogatina e prostituição. Nada tivera na vida à não ser a falta de vontade para trabalhar. Então, senhora Wilson veio de encontro à filha de sua velha amiga, para que lhe ajudasse.

Eleonore abriu os lábios, com receio das palavras que tinha que falar à sua cliente. Infelizmente, o que a velha suspeitava era verdade: seu filho tentaria matá-la aquela noite, e à Behemoth pertencia a alma da senhora Wilson. O demônio da ira roubaria a alma da pobre idosa. Deveria então avisá-la ou não? Quem sabe dando-lhe a chance de viver mais um pouco, ela não conseguiria se redimir com sua entidade superior? Quem sabe Gaia ou Deus não pudessem perdoá-la.

Então disse à ela a verdade. A senhora deixou lágrimas caírem de seu rosto, não por medo ou raiva, mas sim por tristeza. Triste por seu próprio fruto desejar seu mal para gastar em coisas mundanas. Senhora Wilson lhe entregou o dinheiro e se retirou da casa, agradecendo-lhe Ficou noite, e Eleonore adormeceu.

Amanhecera, e os raios de sol preencheram seu quarto. Eleonoreagradeceu à Apolo pelo belo dia, e se retirou o jardim. Pegara o jornal que estava ao seu portão, e abrindo-lhe, pôs a mão à boca, em pânico.

“Fora encontrado pela madrugada de ontem, o corpo de Carmélia Wilson e de seu filho, Frederich Wilson. Pelos laudos policiais, houve uma luta dentro do local, e a Senhora Wilson acabou por matar seu próprio filho. Minutos depois, cometeu suicídio.
Carmélia Wilson era uma senhora residente da cidade há muito, e a ultima vez que fora vista, se consultava com uma adivinhadora local.”

Se trancou em casa, e não abriu a loja naquele dia.Os olhos frios, cobertos de lágrimas de remorso fitavam o movimento do sol através da cortina. Ouvira risadas lá fora. As ignorou. Ouviu palavrões, os ignorou. A culpa carcomia sua alma alegre e deixava somente as migalhas. À noite, saíra pela porta do quarto e vira em que sua casa se transformara. As palavras “bruxa”e “assassina” cobriam toda a fachada. Não sentiu ódio, era verdade. Matará alguém indiretamente. Voltou pela porta e chorou. Chorou até o sol voltar, e então esmoreceu à cama, aguardando o dia em que sua paz interior voltasse.