Sinceridade fora sempre o que distinguira Eleonore das outras pessoas, desde criança. Era uma sinceridade infantil, mas tímida e ainda sim temerosa. Poupava palavras para dizer o que sentia, com fim de não ofender nem constranger quem estava ao seu redor. Desta vez, porém, ela não conseguia mais conter as palavras ou evitar tocar no assunto que há algum tempo a incomodava.

A criatura que navegava o barco, por mais semelhante que fosse com um homem, não tinha o “pré-requisito”, para não dizer nada vulgar, e isso não incomodava Eleonore. Geralmente, criaturas não humanas não se diferenciavam bem em sexo e muitas vezes isso causava problemas extremamente grotescos. Até esse ponto, tudo se mantinha comum, porém um detalhe naquele corpo nu intrigava a antiga bruxa: ele tinha nádegas, e das grandes. Eleonore as fitava desesperada e intrigada, porque nádegas não eram corriqueiras na vida mágica. Estava incomodada.

- Por que você tem bunda? – Questionou a mulher, numa explosão de desespero, curiosidade e indignação. O barqueiro então parou de remar, e ficou parado, sem olhar para ela. Seu corpo então estremeceu, e uma risada horrenda, percorreu todo o vácuo de onde se encontravam.

- De todas as perguntas que eu esperava receber, Senhora Delfus, essa nem sequer passou pela minha cabeça. Todo mundo que senta nesse barco se preocupa mais em questionar “Onde estamos indo?” ou “Quem é você?”, mas nunca ouvi um “Por quê você tem nádegas?”. Essa sua pergunta só me leva a outra pergunta, por quê essa indignação se todos os humanos têm nádegas?

- Você não é humano – respondeu Eleonore, bruscamente. A resposta foi visivelmente sentida, pois a criatura se encolheu e se entregou à quase ofensa, num gemido de dor e decepção.

- Não mais – retrucou, triste. Ao ouvir o tom que o ser respondeu, a mulher se arrependeu prontamente e em sua mente procurou trinta maneiras de como se desculpar pela visível ofensa. – Ás vezes, Senhora Delfus, algumas pessoas têm que pagar pelo que fazem em vida, e elas pagam eternamente. À elas é fadado o castigo eterno pelos seus pecados, se assim posso chamar. É por isso que não sou humano e tenho nádegas.

Eleonore se calou e o barqueiro voltou a remar. O silêncio agora era constrangedor e o clima de arrependimento da moça era sentido há quilômetros. Navegaram por muito tempo em silêncio, mas a traseira visível não era mais um problema. A criatura, durante o percurso, pegou um pedaço de pano boiando na água e amarrou na cintura. Eleonore se entristeceu.

[...]

Bruscamente, o clima mudou na superfície. Depois de muito tempo navegando sem rumo, o caminho foi se estreitando ao redor do barco e o que antes parecia uma imensidão, se tornou apenas um rio: grande, mas ainda um rio.

A água era em demasia escura e não se via nada abaixo da superfície, nem sequer a correnteza. À margem, paredes foram esculpidas com escrituras antigas e repletas de estátuas com cenas de guerra, de vida e de morte. Ao olhar para cima, era impossível ver o fim das paredes, que subiam eternas numa imensidão escura e curiosa. Eleonore, mesmo arrependida e constrangida, se arriscou em perguntar.

- O que são essas escrituras e imagens, rapaz?

- Estamos entrando no submundo, Senhorita Delfus, o lugar onde todas as almas descansam ou são atormentadas. Abaixo de nós nadam agora rumo ao poço eterno, milhões de almas que acabaram de ser arrebatadas da superfície. Por sinal, o marido da sua vizinha está para chegar em breve por aqui, também. Bem, não foi bem isso que a senhorita perguntou, mas te explico. Quando alguém morre, o motivo de sua morte é então gravada nessas paredes para que sempre lembrem quais foram as razões para tirarem sua vida e para que não cometam os mesmos erros seguidamente.

Eleonore agora entendeu o porquê de tantas cenas sem conexão alguma. Era a representação de vidas acabadas, em violência, doença ou apenas em paz. Ela se perguntou onde estaria a imagens dos seus pais, ou até mesmo o de sua vida passada. O rapaz retornou a falar:

- Se quiser saber o mais sobre a vida de qualquer pessoa que caminhou pelo mundo, basta ler essas inscrições ou observar as imagens. A morte é um tesouro valioso, mas pode levar à loucura. É por isso que ninguém vivo pode fazer esse caminho pela superfície, somente a senhora. Alguém lá embaixo quer muito a sua companhia. Espero que ele não se arrependa, como eu.

- Rapaz, desculpe, okay? Eu não tinha obrigação alguma de saber da sua vida passada, nem de saber que um dia você foi vivo. Criaturas mágicas geralmente não têm história. Não me culpe por isso. – Respondeu Eleonore, agora também ofendida pela violência gratuita recebida pelo colega de viagem. Era uma mulher calma, mas quando se sentia injustiçada, uma discussão verbal era certamente previsível.

Então tudo parou. A correnteza cessou, deixando o barco parado em uma inércia mágica no meio do nada. Abaixo de seus pés, a moça agora ouvia gritos agonizantes de morte e tortura. Mãos começaram a surgir ao redor do barco, agarrando suas bordas e clamando por salvação. O homem então se virou para Eleonore, com os lábios abertos em sangue e raiva e começou a cuspir palavras enraivecidas em uma língua visivelmente morta.

- Como ousa me responder desse modo, mortal burra? Não sabe quem sou eu? – Gritava em fúria a criatura, com o rosto colado ao de Eleonore, que se mantinha muda e amedrontada. – Sou o barqueiro, aquele que guia as almas para o submundo e uma mortal patética como você ousa me desrespeitar? Não aturarei desaforos.

Fora então que a criatura cravou as mãos finas e ossudas ao redor do pescoço de Eleonore, comprimindo sua garganta. A mulher se debateu no fundo do barco, tentando tirar as mãos do monstro de seu corpo, também tentava chutá-lo para se afastas. Seu rosto já estava adquirindo uma coloração púrpura quando conseguiu atingir um chute na canela da criatura, que caiu ao fundo do barco junto da mulher, com seus longos cabelos para a água.

O barqueio tentou se recompor quando, de repente, as mãos que agarravam a beirada do barco alcançaram suas madeixas e começaram a puxá-lo para dentro da água. Aquele então começou a gritar.

- Por favor, me ajude. Não me deixe. Perdão. – O rapaz clamava à Eleonore por ajuda, enquanto se segurava no barco, com a cabeça sendo puxada violentamente para trás, enquanto dezenas de mãos arrancavam seu couro cabelo. O Barqueiro relutava, tentando se defender, tentando se livrar dos agressores. Então proferiu suas  últimas palavras – Cretina! – quando um dos espiritos saltou da água e, arrastou o corpo do barqueiro, vivo, para a imensidão escura dos mortos.

Eleonore então se levantou tremendo, desesperada e ainda assustada com o que tinha acabado de acontecer. Tinha matado aquele que guiava os espiritos até seu fim. Viu-o morrer na própria fúria e só Gaia sabia qual era seu destino. Desorientada, percebeu que todo o caos que há pouco havia se instaurado agora tinha cessado e tudo voltou ao silêncio. Não sabia o que fazer, mas sabia que algo à esperava agora no fim daquele rio e que precisava chegar lá, se quisesse sair viva da terra dos mortos, então pegou o remo e se seguiu o rumo da correnteza, até onde os espiritos à levassem.