“Ás
vezes me pergunto o que seria a escuridão. Eu vejo quão triste ela é, mas ao
mesmo tempo tão acolhedora. A escuridão é lasciva, amedrontadora, corrupta.
Quando me vejo perdida nela, minha alma apenas flutua num vazio espiritual tão
complexo quanto a matéria negra do universo. Seria a morte um fundo infinito
negro também? Se o escuro não é bom nem ruim, seria a morte sua semelhante?
Lembro
de quando era pequena, via as crianças dos olhos negros andando nas ruas, esperando
suas próximas vítimas e lembro de achar que elas não eram boas. Mas se elas
trazem a morte, elas também não eram más. É somente perdida assim que chegamos
à essa conclusão. Não lembro da ultima vez que acordei.
Será
que morri? Se eu morri, a morte é algo bem sem graça, admito. Esperava mais de
algo tão vangloriado. Estou apenas flutuando num mar sombrio. Nadar no esgoto
era mais divertido. Espero estar viva, se não vou morrer de tédio. Ironía.“
O
vento frio do mar percorreu o corpo úmido de Eleonore, que ainda jazia jogado
na beira do lago. Estava suja de areia, folhas e talvez cocô, só Gaia sabe onde
o esgoto daquelas casas vai parar. O sol ainda não tinha aparecido, mas ao
horizonte se via uma luz fraca avisando sua chegada.
A
velha caminhava com seus passos curtos e instáveis na orla à procura da moça.
Já sabia que o que vinha a acontecer com ela, logo que sentia um toque mágico
naquela moça, uma força de contato que era muito raro de encontrar em alguém..
vivo. Ela carregava na mão uma caneca grande de barro que expelia fumaça, provavelmente
continha algo quente. Chegou perto do
corpo no chão e virou a caneca na mulher.
Eleonore
acordou da sua inércia, queimando viva por dentro e por fora. Tocara o rosto,
olhou para o lado, perdida. Olhou para cima e viu a senhora que algumas horas
antes visitou-a em casa. “Que velha filha da puta”, pensou.
-
Seu visitante veio rápido essa noite. Ele geralmente demora um ou dois dias
para aparecer. Antes disso, ele tortura a vítima um pouco até por fim levá-la à
loucura.
-
Já sou louca o suficiente, dona Olga. Sou quase intocável para ele. Tentou me
fazer mal, mas as vezes minha insanidade me protege. O que é ele?
-
Uma criança, aquelas dos olhos negros, você deve conhecê-las. Há muito vive
aqui e atormenta quem mora na região. Não é nada mais que uma criança
perturbada querendo chamar à atenção. Ela muda de forma constantemente. Ás vezes
um urso na neblina, Ás vezes uma criança na relva. As pessoas aqui o chamam de “O
Atormentado”.
-
Maldito seja.
Eleonore se levantou e agradeceu à
senhora pela ajuda. A velha Olga apenas retribuiu o sorriso e foi embora pois
sabia que a moça já estava sendo flagelada o suficiente pelos últimos tempos. Tinha
visto as marcas em seus pulsos.
[...]
Já estava indo embora, alguns dias
depois. Aparentemente o espírito infantil não voltou a aparecer, provavelmente
porque um assassino não volta ao local da morte duas vezes. Estava melhor
assim. Não que ela se incomodasse com espíritos, pelo contrário, ela adorava
conhecê-los. Teve até aquela vez em que ela encontrou o Frei Gordo e tiveram um
papo bem agradável, com umas xícaras vazias e muito ectoplasma. Eleonore não
sabia que flatulências espirituais fediam tanto quanto as humanas.
O sol já estava se pondo novamente e
o cenário tomou um tom azulado e frio, mas ainda claro. O céu ainda estava
coberto por uma grossa camada cinza de nuvem e via que em breve começaria a
garoar. Precisava se apressar e terminar tudo antes do escurecer. Por fim,
alguns minutos depois, fechou a porta da casa e colocou a chave no bolso. Olhou
por fim aquele lugar lindo que a acolhera e se despediu, em silêncio.
Fora
então, que ao fundo, ouviu um assovio cantarolado baixo, melancólico e frio. O
som vinha tranquilo aos ouvidos da mulher e, cega pela curiosidade, correu sem
rumo. À sua volta, somente borrões verdes que passaram tão rápidos quanto um
trovão e Eleonore, incapaz de desviar de todos os obstáculos, batia em tudo
pelo que passava.
Já
descabelada e com graves cortes pelo corpo, ela chegou novamente à beira do
lago e parou, pasma, observando o que vinha ao seu encontro. Do horizonte,
vinha um barco lento e triste, conduzido por um homem nu, tão saudável quanto
um cachorro com sarna. O homem era magro em demasia, com quase todos os ossos
visivelmente marcados. Os braços seguravam um remo tão visivelmente pesado que
era incompreensível a forma pela qual o homem tinha forças.
Entretanto,
o mais chocante do ser que vinha pelas águas era o fato de ele não ter rosto. A
cabeça era coberta por longos cabelos escuros, extremamente lisos e o único
acessório do seu rosto eram lábios grossos que emolduravam um sorriso triste e
cinza. Eles se mexiam devagar, sussur rando
cântigos antigos que Eleonore não entendia.
O
barco atracou na beira da praia e ficou lá, em silêncio. Ao seu redor, uma fina
névoa se formava e tudo ficou simplesmente mudo. A criatura então virou-se para
a mulher e abrindo um sorriso, lhe cumprimentou. Eleonore não sabia o que
fazer, estava completamente imóvel e amedrontada.
-
Olá, senhorita Delfus. Venho em buscar de companhia, quer se juntar à mim em
uma, talvez, breve viagem? Lhe prometo que será muito recompensador. Tudo o que
precisa fazer é me dar uma moeda, uma singela moeda.
Eleonore,
ainda temerosa, abriu a carteira e tirou um dime que rolava por lá há algum
tempo. Entregou ao rapaz, que fechou a mão ao seu redor e a faz sumir. Ele
estendeu a mão, fria e ossuda, para a mulher e abriu um sorriso novamente. Seu
corpo, ainda nu, tremia de frio.
-
Vamos sem delonga, essa maldita cidade está sempre fria e meu corpo já sente os
castigos do vento. – Por fim, Eleonore subiu no barco e sentou atrás da
criatura, observando-o remar e vendo a beira do lago sumir mais e mais,
enquanto se perdiam nas nuvens brancas que cobriam a água rumo ao desconhecido.